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  • Foto do escritorCecília Lume

A falta de humanização nas dietas




Hoje eu estava conversando com uma paciente sobre os altos e baixos da alimentação e percebi o quanto nos cobramos para que exista um dia em que vamos dar início a uma alimentação perfeita e que a partir desse dia todas as nossas refeições serão feitas dentro do esperado ou planejado. Essa geralmente é a expectativa da maioria das pessoas em uma primeira consulta com uma nutricionista. "Agora vai" "Foco, força, fé" "Agora a dieta começou". E sabe qual é o problema de tudo isso? O problema é que essa expectativa, na maioria das vezes, ocasiona muita frustração e angústia. "Nossa acho que vou desistir" "Ontem não consegui seguir o planejamento em uma das refeições então eu falhei" "Nossa eu comi um pedaço de chocolate então furei a dieta" "Ontem foi aniversário da minha mãe e comemos bolo a noite.. acabei com o dia todo que tinha sido planejado e estou me sentindo um fracasso".


Frases como essas são mais comuns do que imaginamos e corroboram com fatos e dados científicos sobre o motivo de dietas não darem certo. Dietas com horários pré-estabelecidos e quantidades milimetricamente definidas muitas vezes não levam em consideração nossas emoções, sentimentos, comemorações, mudanças. Dietas, muitas vezes, não são humanizadas e é aí que os problemas, angústias e frustrações começam a aparecer.


Sabemos que o estresse é um dos principais fatores de risco para a maioria das doenças que temos. E será que essa angústia, preocupação e frustração constante com a alimentação também não pode nos trazer algum dano? Preservar a saúde mental ao fazer um planejamento alimentar é essencial. Hoje vejo como um dos principais pontos a serem considerados quando estou frente a frente com um paciente.


E sim gente. Eu sou uma nutricionista que sabe calcular dietas e que as vezes precisa usar essa estratégia. Sou uma nutricionista que passou horas e horas da faculdade calculando dietas à mão em provas para conseguir atingir as recomendações de todos os nutrientes na alimentação de uma pessoa. Acontece que eu enxergo a alimentação para muito além da questão nutricional e eu sei como a nossa vida impacta aquilo que comemos. E o que eu procuro fazer é NORMALIZAR o impacto que nossa vida tem na nossa relação com a comida.


Eu sempre falo para minhas pacientes que o objetivo de nosso acompanhamento nutricional é construir estratégias de uma alimentação mais saudável para que elas possam levar aquilo para a vida e procuro, ao máximo, considerá-las como seres humanos ao propor estratégias. Considerar a humanização para falar sobre a alimentação é essencial. Um ser humano que não vive apenas para preocupar-se com a alimentação pesando tudo o que come, um ser humano que também vive, experimenta, se apaixona, comemora e muda. E muda sempre. E vive outras coisas.


Se não existem NECESSIDADES de uma dieta calculada 'milimetricamente' com horários pré definidos, por quê pessoas saudáveis precisam de um papel com tudo calculadinho para comer? Por que crianças não precisam de dieta calculada, podem estar inseridas em um contexto alimentar saudável com algumas situações de alimentação recreativa e ter mais liberdade para respeitar os sinais de fome e adultos precisam ser diferentes?


Por que entramos na vida adulta e tudo parece que precisa ser mais difícil? Até na alimentação?


Frustração com hora marcada é esperarmos que nossa vida, nosso estado emocional e nossa rotina não vão impactar nossa alimentação. Esperarmos que no aniversário da vó vamos deixar de comer salgadinhos porque fazem mal e são frituras. Esperarmos que vamos recusar o convite de um amigo, que não vemos há muito tempo, para comer uma pizza porque tem muita gordura e vai "furar" a dieta.


Nutricionistas: precisamos normalizar os altos e baixos com a alimentação. Precisamos entender em quais casos uma dieta calculada pode trazer benefícios. Precisamos entender se temos a NECESSIDADE de emagrecer. Precisamos considerar a vida do paciente para além da prescrição nutricional. Precisamos muitas coisas.


Nós somos seres mutáveis e passamos por mudanças muito importantes, muitas vezes bonitas e outras vezes nem tanto assim. E nossas mudanças impactam nossa alimentação. E eu considero esse processo muito lindo. Eu acho bonito ver como a alimentação acompanha aquilo que estamos vivendo e como podemos APRENDER com isso para que possamos melhorar a cada dia. Para que possamos construir, através de nossas experiências, o que nos faz mais sentido quando pensamos em alimentação.

A alimentação saudável precisa fazer sentido. A alimentação saudável precisa ser humanizada.



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